Sentinela de Sal

(Vontade de ser barco ou de cantar.)

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Respuesta

Quisiera que tú me entendieras a mí sin palabras.
Sin palabras hablarte, lo mismo que se habla mi gente.
Que tú me entendieras a mí sin palabras
como entiendo yo al mar o a la brisa enredada en un álamo verde.

Me preguntas, amigo, y no sé qué respuesta he de darte.
Hace ya mucho tiempo aprendí hondas razones que tú no comprendes.
Revelarlas quisiera, poniendo en mis ojos el sol invisible,
la pasión con que dora la tierra sus frutos calientes.

Me preguntas, amigo, y no sé qué respuesta he de darte.
Siento arder una loca alegría en la luz que me envuelve.
Yo quisiera que tú la sintieras también inundándote el alma,
yo quisiera que a ti, en lo más hondo, también te quemase y te hiriese.

Criatura también de alegría quisiera que fueras,
criatura que llega por fin a vencer la tristeza y la muerte.

Si ahora yo te dijera que había que andar por ciudades perdidas
y llorar en sus calles oscuras sintiéndose débil,
y cantar bajo un árbol de estío tus sueños oscuros,
y sentirte hecho de aire y de nube y de hierba muy verde...

Si ahora yo te dijera
que es tu vida esa roca en que rompe la ola,
la flor misma que vibra y se llena de azul bajo el claro nordeste,
aquel hombre que va por el campo nocturno llevando una antorcha,
aquel niño que azota la mar con su mano inocente...

Si yo te dijera estas cosas, amigo,
¿qué fuego pondría en mi boca, qué hierro candente,
qué olores, colores, sabores, contactos, sonidos?

(...)

José Hierro

terça-feira, 26 de junho de 2007

Boneca


Sou menina dos ventos
Ando nua... descalça de vida
a costurar sonhos com uma agulha
Boneca de madeira...
-muda de retalhos-
florida de quimeras
refletida de estrelas
ao findar poente
Então...
... então chorei...
anoitecida... de mim.

Palas

Um soneto para amar o amor...

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Nao tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte imaginada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois com ele tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

-Camoes-

A flor da solidão

"Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos"

Ruy Belo

domingo, 24 de junho de 2007

Povoamento


No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam vôo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Um dia...


Um dia virei
colado a um verso, embrulhado
numa folha, dobrado
a um canto,

para que os teus lábios
me ciciem, os teus olhos
me beijem

e eu não saiba
e eu não sinta.


Albano Martins

terça-feira, 19 de junho de 2007

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Espaço curvo e Finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

José Saramago

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Surdina


Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens - é a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia...

Cecília Meireles

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Antes o vôo


Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
mostra que já esteve, o que não serve para nada.
*
A recordação é uma traição à Natureza,
porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
*
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!
-Alberto Caeiro-

segunda-feira, 11 de junho de 2007

A trabajos forzados

By Sun Drops Tonight
A trabajos forzados me condena
mi corazón, del que te dí la llave.
No quiero yo tormento que se acabe,
y de acero reclamo mi cadena.

Ni concibe mi mente mayor pena
que libertad sin beso que la trabe,
ni castigo concibe menos grave
que una celda de amor contigo llena.

No creo en más infierno que tu ausencia.
Paraíso sin ti, yo lo rechazo,
que ningún juez declare mi inocencia,

porque, en este proceso a largo plazo,
buscaré solamente la sentencia
a cadena perpetua de tu abrazo.

Antonio vega, inspirado
en un soneto de Antonio Gala

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Não...


Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Quando...


Quando eu era criança
pensava que o céu era reflexo do mar
e quando corri naquela direção,
molhei-me de azul...

A alma sorriu tão desbotada...
e eu fiquei como o céu,
refletida do mar e salgada.

Palas

quarta-feira, 6 de junho de 2007



Os olhos que aqui passam,
açucarados ou enaltecidos,
derramam, aniquilam
segundos, vidas inteiras,
conquistas sob chuvas derradeiras,
em prol de um novo som.
Cada qual em seu rito,
enlevo verdadeiro de admirar.

*

Melodias feitas nos passos,
vôos nas palmas das maos...
Pássaros de mim,
alimento.
Alimento-os.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Balada do adeus




Leve seu riso...sua boca com cheiro de verdes goiabas...

Esqueça o caminho do meu corpo...esqueça as madrugadas...

Leve suas mãos...em meu quadril tatuadas...

Esqueça, menino, minha cintura já desajeitada...

E vá...

Enquanto ainda tenho encantos...

Enquanto ainda existem acalantos...

Vá..Enquanto, sereno, dorme em meus seios...

Enquanto nos abraçamos sem receios...

Vá...

Seu corpo nú, calmo está...

Meu corpo nú, te desenhando...

Eis o momento...é agora...vá...

Vá..

Não volte nunca mais..meu corpo irá se fechar...

Para qualquer palavra...qualquer gesto de amar...

Vá..Nossa história precisa findar...

Não podemos...não devemos...nos machucar...

Vá...

Guarde ou jogue fora...

As lembranças deste amar...

Por ora não sei como será...Nem como você reagirá...

Mas vá...

Acorde de mim...

Tome seu café...

Siga com fé...

Não será de todo ruim...

Vá!!!

É um adeus...é um fim...Vá !...




Ana Karênina

(foto:Frephoto.com)
Publicado no Recanto das Letras em 02/06/2007 Código do texto: T510574
Licença Creative Commons

domingo, 3 de junho de 2007

Não haverá uma só coisa que não seja
uma nuvem. São-no as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisará. É- o a Odisseia,
que muda como o mar. Há algo de distinto
de cada vez que a abrimos. O reflexo
da tua cara já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa converte-se noutra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também aquilo que por ti foi perdido.

Jorge Luis Borges

sábado, 2 de junho de 2007

Nao desista . . . . . . .




Me contradigo?
Tudo bem, entao . . . . me contradigo;
Sou vasto . . . . contenho multidoes.

Me concentro nos que estao perto . . . . espero na porta.

Quem terminou o batente e vai jantar mais cedo?
Quem quer passear comigo?
Você vai falar antes que eu vá embora? Ou virá quando é tarde demais?

O falcao pintado dá um rasante sobre mim e me acusa . . . . reclama de minha
conversa fiada, minha preguiça.

Também nao sou facilmente amestrável . . . . também nao sou facilmente traduzível,
Solto meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.
A última nuvem do dia se demora por mim,
Lança minha semelhança após o resto, fiel como todas nos ermos sombrios,
Me incita pro vapor e pro crepúsculo.

Vou-me feito vento . . . . agito meus cabelos brancos contra o sol fugitivo,
Esparramo minha carne em redemoinhos e a deixo flutuar em retalhos rendados.

Me entrego à terra pra crescer da relva que amo,
Se me quiser de novo me procure sob a sola de suas botas.

Vai ser difícil você saber quem sou ou o que estou querendo dizer,
Mas mesmo assim vou dar saúde,
Vou filtrar e dar fibra a seu sangue.

Nao me cruzando na primeira nao desista,
Nao me vendo num lugar procure em outro,
Em algum lugar eu paro e espero você.

-Trecho extraído de Folhas de Relva, Walt Whitman-