Sentinela de Sal

(Vontade de ser barco ou de cantar.)

sábado, 29 de setembro de 2007

Coração endurecido (II)

Se eu pudesse dizer,
se eu pudesse deixar de perguntar
o que pode amor contra a fúria de amar;
se eu pudesse impedir que a noite chegasse;
se este dia azul,
se minhas mãos pudessem -
- do fundo do coração endurecido
talvez brotasse a palavra alada
que dorme em mim e voasse liberta,
para te dizer
(se eu pudesse).

- Carlos Felipe Moisés

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Borrão

Refletiam alvoradas no olhar
e não as contive...

Vertiam...

De Azul constelado
borrando a face...
da Íris

do céu de minha alma...

Palas

sábado, 22 de setembro de 2007

Um dia...


um dia [talvez] esta carta te chegue –
talvez às mãos [te] chegue
a mínima palavra solsticial
que agora não entendes
como não entendes os gestos
e os toques
dos relâmpagos cardíacos com que te amo
esta carta
sim
[talvez]
chegue um dia às tuas mãos e por fim
alguma coisa maior faça sentido
nas tuas mãos fechadas
no teu oco sentido esférico de olhar
as cartas não se perdem porque as cartas não
são deste mundo
hão-de entrar-te pelos ossos desatados
estas palavras
vidas que sejam até que a órbita cega
do teu coração preso
se detenha na atrasada compreensão
do amor

Frederico Mira George,
"Tratado Secreto da Paisagem", 2005

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

83 - FORÇA PRIMEVA




Olho para longe,
para o outro lado dessas águas escuras,
onde se juntam todas as recordações que ainda virão a ser,
pálidas como clareiras num verde imenso, total,
onde amanhecem brumas que se incendeiam,
num fogo diáriamente renovado.
Procuro-te nos mais leves movimentos,
mal os vejo despontar, aqui e ali,

nos mil lugares onde um dia passarás
nos passos deslizantes e irredutíveis,
fascinantes, do que vieres ainda a ser...
Procuro-te nos gestos que nunca vi,

nos jeitos sutis de detalhes que não conheço,
nos pressentimentos aninhados nas palavras
que, aos poucos, se libertam em brilhos,

e se revelam no que vou escrevendo,
como se os soubesse realmente.
Não procuro adivinhar-te, para, assim, te ter !
Eu já te tenho, nesses meus braços fortes,
nesse sangue correndo, como seiva primitiva de mim.
Eu já te tenho! Mesmo indômita te tenho,
como força maior, como energia pulsando sempre!
Ou como espinho na carne, queimando docemente...
Ou como um frêmito nas flores, á beira do rio,
cujo reflexo corre sobre as águas, contra a correnteza,
para que ela não o afaste do seu original.
Eu já te tenho, poesia, força primeva, essencial,
fado a cumprir, fogo-fátuo que nunca me abandona.
Mas balanço! E gaguejo, estremeço e rio,
sem entender como te tenho,
se, no fundo, te sinto dona...

Setembro 2007

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

No te dentengas nunca...

No te detengas nunca
cuando quieras buscarme.
Si ves muros de agua,
anchos fosos de aire,
setos de piedra o tiempo,
guardia de voces, pasa.
Te espero con un ser
que no espera a los otros:
en donde yo te espero
sólo tú cabes. Nadie
puede encontrarse
allí conmigo sino
el cuerpo que te lleva,
como un milagro, en vilo.
Intacto, inajenable,
un gran espacio blanco,
azul, en mí, no acepta
más que los vuelos tuyos,
los pasos de tus pies;
no se verán en él
otras huellas jamás.
Si alguna vez me miras
como preso encerrado,
detrás de puertas,
entre cosas ajenas,
piensa en las torres altas,
en las trémulas cimas
del árbol, arraigado.
las almas de las piedras
que abajo están sirviendo
aguardan en la punta
última de la torre.
Y ellos, pájaros, nubes,
no se engañan: dejando
que por abajo pisen
los hombres y los días,
se van arriba,
a la cima del árbol
al tope de la torre,
seguros de que allí,
en las fronteras últimas
de su ser terrenal
es donde se consuman
los amores alegres,
las solitarias citas
de la carne y las alas.

-Pedro Salinas-

domingo, 16 de setembro de 2007

Ai...

se eu...
pudesse rasgar
o silêncio
...brotado.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Espejo

Hay una noche,
un tiempo hueco, sin testigos,
una noche de uñas y silencio,
páramo sin orillas,
isla de yelo entre los días;
una noche sin nadie
sino su soledad multiplicada.

Se regresa de unos labios
nocturnos, fluviales,
lentas orillas de coral y savia,
de un deseo, erguido
como la flor bajo la lluvia, insomne
collar de fuego al cuello de la noche,
o se regresa de uno mismo a uno mismo,
y entre espejos impávidos un rostro
me repite a mi rostro, un rostro
que enmascara a mi rostro.

Frente a los juegos fatuos del espejo
mi ser es pira y es ceniza,
respira y es ceniza,
y ardo y me quemo y resplandezco y miento
un yo que empuña, muerto,
una daga de humo que le finge
la evidencia de sangre de la herida,
y un yo, mi yo penúltimo,
que sólo pide olvido, sombra, nada,
final mentira que lo enciende y quema.

De una máscara a otra
hay siempre un yo penúltimo que pide.
Y me hundo en mí mismo y no me toco.

-Octavio Paz-

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Quando...

Quando repousarás em mim
como a poesia nos grandes poetas
Como a pureza na alma dos santos
Como os pássaros nas torres das igrejas?
Quando repousará o teu amor no meu amor?
Quando penetrará tua luz nos meus olhos vazios,
Como o sol nos pântanos
Como o sorriso nos tristes
Como o Cristo no mundo em pecado?

Augusto Frederico Schmidt

terça-feira, 4 de setembro de 2007

As poucas palavras

Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas por acaso.

Eram contudo palavras de amor.
Nao propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.

Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Nao que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.

-Eugénio de Andrade-

domingo, 2 de setembro de 2007

Sem Ti

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.

Eugénio de Andrade

sábado, 1 de setembro de 2007

Poema de Inverno


Veio de longe, e mal chegou
partiu para mais longe ainda:
só o tempo justo para fazer
das águas dormentes do meu trôpego
coraçao
um rumor de sílabas matinais.

Como toda a gente que partilha
com a luz a sua vida
era muito inocente, trazia do local
onde nascera
o ardor das coisas do mar.

Nao sei de alegria tao pura
como a que morava nas molhadas
pedras dos seus olhos,
e baila ainda em chamas
em qualquer lugar da casa.

Ao fim da tarde, o canto
do pequeno pássaro e o vento diziam
a mesma coisa: nao deixes o incêndio
do deserto invadir-te o coraçao.
Sem que tu o suspeites, sequer.

-Eugénio de Andrade-