Poema de Inverno
Veio de longe, e mal chegou
partiu para mais longe ainda:
só o tempo justo para fazer
das águas dormentes do meu trôpego
coraçao
um rumor de sílabas matinais.
Como toda a gente que partilha
com a luz a sua vida
era muito inocente, trazia do local
onde nascera
o ardor das coisas do mar.
Nao sei de alegria tao pura
como a que morava nas molhadas
pedras dos seus olhos,
e baila ainda em chamas
em qualquer lugar da casa.
Ao fim da tarde, o canto
do pequeno pássaro e o vento diziam
a mesma coisa: nao deixes o incêndio
do deserto invadir-te o coraçao.
Sem que tu o suspeites, sequer.
-Eugénio de Andrade-

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